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Yara de Miranda: a violista que formou gerações no Vale do Paraíba

Podcast Violino Didático

Yara de Miranda é uma daquelas figuras que o mundo da música clássica brasileira conhece bem, mas que merece muito mais holofotes. Violista, pianista de formação e professora de referência no Vale do Paraíba, ela é reconhecida como uma das maiores formadoras de instrumentistas da região. Jean de Oliveira a recebeu com entusiasmo declarado: “a senhora não faz a menor ideia o quanto é uma honra”.

A conversa foi longa, rica e cheia de memórias afetivas. Yara trouxe histórias de uma São Paulo musical dos anos 1970, de professores lendários, de escolhas corajosas e de uma carreira construída com muito arco puxado, literalmente.

Do piano à viola: uma virada aos 21 anos

Yara começou no piano aos 5 anos de idade. Viu o irmão mais velho receber aulas em casa e quis participar, subindo no colo da professora para também tocar. Foi um começo espontâneo e apaixonado.

Sua formação acadêmica seguiu o caminho natural: o bacharelado em piano na Faculdade Paulista de Arte, em São Paulo. Mas foi no último ano da graduação que tudo mudou. Acompanhando colegas em música de câmara, ela se encantou com a viola. “Nossa, é isso aí que eu quero tocar”, ela conta que pensou.

Havia também uma razão prática. Na época, pianistas bons eram muitos. Violistas, quase nenhum. Yara enxergou um caminho menos disputado e mergulhou de cabeça em um instrumento que jamais havia tocado.

Começar do zero com 21 anos

A transição não foi suave. Yara entrou na Escola Municipal de Música de São Paulo sem saber nada de viola. Na primeira aula com o professor Bela Mor, ela recebeu o instrumento, aprendeu a posição básica do arco e foi mandada embora para estudar em casa. Simples assim.

Ela conta que tinha aptidão para cordas, o que ajudou, mas não evitou problemas. Desenvolveu uma postura insalubre da mão esquerda, com o punho aberto, e chegou a tocar com munhequeira por causa das dores. Foi o professor Alejandro de León quem corrigiu essa posição mais tarde.

O que facilitou a transição foi o fato de já ter uma sólida base musical. Com anos de piano, teoria e prática de câmara acumulados, ela não precisava aprender música do zero. Só precisava aprender o instrumento.

Uma linha de professores memoráveis

A trajetória de Yara passou por nomes que qualquer músico brasileiro reconhece. Ela estudou com Bela Mor, com Jorge Kissel, com Alejandro de León e encerrou sua formação com Henrique Miller, a quem chama de mentor. “Um professor que me instruiu muito e acreditou muito em mim”, ela diz com emoção.

Jorge Kissel se tornaria mais do que professor: os dois se casaram. E foi através dele que Yara ouviu histórias fascinantes sobre a formação musical europeia. Jorge contou que entrou na Academia Real de Budapeste sendo um dos dois aprovados entre 400 candidatos. Chegou à primeira aula confiante, mas encontrou um garoto de 11 anos tocando caprichos de Paganini. “Eu queria que o chão se abrisse para eu me enfiar dentro”, ele teria dito.

Essa história ilustra bem o nível de exigência que moldou toda uma geração de músicos que vieram da Europa para o Brasil.

A Orquestra Jovem Municipal e o maestro Jamil

Um ano após começar a estudar viola, Yara já passava no teste da Orquestra Jovem Municipal, hoje conhecida como Orquestra Experimental de Repertório. O regente era o maestro Jamil, recém-chegado da Alemanha.

Yara fala dele com respeito e carinho. “Você sabe quando você tá tocando numa orquestra quem passou pela mão do Jamil e quem não passou”, ela afirma. Ele era exigente, às vezes severo, mas formava músicos com uma solidez rara. “Ele é um excelente formador.”

Sentar naquela orquestra ao lado de músicos que já tocavam desde os 15 anos foi, ao mesmo tempo, intimidador e transformador para quem havia puxado o arco pela primeira vez com mais de 20.

A provocação sobre começo tardio e carreira de solista

Um dos momentos mais instigantes da conversa foi quando Jean levantou uma questão que gosta de colocar: começar mais tarde impede uma carreira?

Yara respondeu com honestidade. Ela mesma começou a viola aos 21 anos e jamais seguiu carreira solo. Mas apontou algo interessante: dos colegas que ela conheceu ainda crianças, estudando desde os 7 anos, também não saiu nenhum solista internacional. Nem na fase do piano, nem na fase da viola na escola municipal.

Ela não usa isso para desmerecer o esforço precoce. Usa para questionar a ideia de que o início cedo garante o destino de solista. “A questão do talento é multifacetada”, ela diz. E o sistema de formação musical da época, herdado da tradição europeia, apontava todos para esse objetivo, mesmo quando pouquíssimos chegavam lá.

Correpetição: uma profissão rara e valiosa

Antes de se dedicar inteiramente à viola e ao ensino, Yara também trabalhava como correpetidora, função raríssima na época. Pianistas com leitura impecável, domínio do repertório e capacidade de fazer reduções eram escassos. Ela cita nomes como Maria Elisa Rizzardo e Joaquim Paulo do Espírito Santo como referências dessa prática.

Hoje, a correpetição é uma profissão valorizada e disputada. Jean observou que um correpetidor pode cobrar 500 reais por hora atualmente. No tempo de Yara, eram poucas pessoas fazendo isso, mas a procura também era menor.

Uma trajetória que inspira

Yara de Miranda é prova de que os caminhos na música raramente são lineares. Começou no piano, foi seduzida pela viola no final da graduação, aprendeu o instrumento quase do zero já adulta, construiu uma carreira sólida como musicista e se tornou referência como professora.

Sua história desafia a ideia de que existe apenas um caminho certo para se tornar músico. E reforça o que o Violino Didático sempre defende: com dedicação, orientação e amor pelo instrumento, é possível construir algo significativo, independentemente do ponto de partida.

Ouça o episódio completo no YouTube: YARA DE MIRANDA - Podcast do Violino Didático #137

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