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Paula Lima: a violinista que conquistou os fossos dos musicais de São Paulo

Podcast Violino Didático

Paula Lima é o tipo de músico que a maioria das pessoas não vê, mas sente. Ela fica no fosso, embaixo do palco, tocando violino enquanto atores cantam, luzes se movem e o público se emociona. E ela faz isso há muito tempo, em muitos musicais, com uma consistência que poucos conseguem manter.

Em conversa com Jean de Oliveira, ela falou sobre sua trajetória nos musicais de São Paulo, a vida dentro do fosso e tudo que vai muito além de tocar bem.

De Bela e a Fera ao fosso como casa

O primeiro musical de Paula foi Bela e a Fera, e o caminho até ele tem uma coincidência bonita. Ela foi assistir ao espetáculo, adorou, ficou pensando o quanto gostaria de estar ali no fosso tocando tudo aquilo. E pouco tempo depois foi chamada para ser substituta de um violinista chamado Jean Reis, justamente naquela mesma montagem.

Ela entrou como sub, mas saiu apaixonada pelo formato. A complexidade de um musical, com músicos no fosso, luz, cena, atores, figurino, tudo acontecendo ao mesmo tempo, era exatamente o tipo de desafio que ela queria enfrentar.

Depois disso, ela não esperou ser chamada. Foi atrás. Ficou de olho no Diário Oficial, participou de testes para musicais que vinham do Rio para São Paulo e foi passando. Um musical, depois outro, depois mais um. A trajetória foi sendo construída por escolha própria, não por acaso.

A vida dentro do fosso: muito mais do que tocar

Um dos temas mais ricos da conversa foi a dinâmica do fosso. Para quem não conhece, o fosso é o espaço onde a orquestra toca em musicais e óperas, geralmente abaixo do nível do palco, às vezes completamente fechado, às vezes com visão parcial da cena.

Mas o que torna o fosso diferente de uma orquestra convencional não é só a posição física. É a intensidade da convivência. Em um musical que fica meses em cartaz, com ensaios todos os dias e apresentações nos fins de semana, os músicos passam mais tempo uns com os outros do que com as próprias famílias. Paula disse isso com todas as letras: você não vê sua família, porque músico trabalha quando todo mundo está de folga.

Essa proximidade exige algo que vai além da técnica. Exige sensibilidade para saber quando o colega está bem, quando não está, quando é hora de brincar e quando é hora de só deixar passar. O fosso, segundo ela, funciona como uma família. Uma família que você não escolheu, mas com quem vai dividir Páscoa, Dia das Mães e Natal por dois anos seguidos.

Tocar bem é o mínimo, não o suficiente

Um ponto que Paula e Jean retomaram várias vezes ao longo da conversa é direto ao ponto: tocar bem é o ponto de partida, não o destino. Quem contrata não está procurando alguém que toca bem como diferencial. Isso é o básico esperado. O que faz diferença é tudo o que vem junto.

Ela contou que um diretor musical chegou a uma conclusão depois de alguns anos fazendo testes: os testes atraíam os músicos mais tecnicamente competentes, mas nem sempre os mais fáceis de conviver. E convivência ruim no fosso contamina tudo. O clima azeda, surgem brigas, o trabalho fica pesado para todos. Esse diretor decidiu parar com os testes e passou a pedir indicações dos próprios músicos, valorizando quem toca bem e é bom de trabalhar.

A lição que Paula tira disso é simples: cuide da sua postura, da sua forma de se relacionar, da sua capacidade de resolver problemas com educação. Porque os músicos são sempre os mesmos de um projeto para o outro, e sua reputação caminha com você.

O desafio de manter o padrão, apresentação após apresentação

Outro aspecto pouco discutido sobre a vida nos musicais é o desgaste da repetição. Fazer a mesma música, na mesma ordem, com as mesmas marcações de cena, por meses a fio, cobra um preço mental que nem todo músico consegue pagar.

Paula contou que já viu colegas que não conseguiam dormir porque a trilha ficava passando na cabeça sem parar. A música vai fundo, decora tudo, e o cérebro não desliga. Para ela, a solução foi desenvolver uma espécie de habilidade de deletar. Quando sai de uma temporada, consegue simplesmente não lembrar mais. Não é esquecimento descuidado, é proteção. O cérebro precisa de alguma forma de renovar-se para chegar fresco na próxima apresentação, como se fosse a primeira.

Ela também mencionou a importância dos substitutos bem preparados. Hoje em dia, quando um músico sabe que vai precisar faltar, o substituto entra nos ensaios junto com o elenco. Assim, qualquer troca acontece sem sustos para ninguém, nem para os músicos nem para a cena.

Orquestras, aulas e uma agenda que nunca para

Além dos musicais, Paula Lima toca atualmente na Orquestra Sinfônica de Santos e na Orquestra Sinfônica de Santo André. As duas orquestras funcionam em dias alternados da semana, o que, segundo ela, torna a conciliação possível, mesmo que a distância entre as cidades não seja pequena.

Ela também dá aulas de violino para crianças, em casa, na casa dos alunos e online. Tem poucos alunos por escolha, para conseguir preparar bem cada aula e acompanhar a evolução de cada um de perto. Qualidade, não quantidade.

A conversa com Jean mostrou alguém que construiu uma carreira musical diversificada, consistente e sustentada por valores claros: preparação, convivência saudável e entrega genuína em cada apresentação.

Ouça o episódio completo no YouTube: PAULA LIMA - Podcast do Violino Didático #116

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