Luciano Camargo: ópera, violino e paixão pela música
O maestro Luciano Camargo não veio de família de músicos. Não cresceu cercado de partituras nem teve um piano em casa. O que o fisgou para a música foi um filme, assistido por volta dos 11 anos, que mudou completamente o rumo da sua vida.
Esse filme foi Amadeus, de Milos Forman. E a partir dali, Luciano soube exatamente o que queria fazer, mesmo sem entender ainda como chegar lá.
De uma cena de ópera ao Teatro Bradesco
A conversa com Jean de Oliveira aconteceu num dia especialmente simbólico: a data da estreia de A Flauta Mágica no Teatro Bradesco, com regência do próprio Luciano. A mesma ópera que o encantou no filme décadas atrás.
Não era coincidência. Era o fechamento de um ciclo que começou numa escola pública do Butantã, em São Paulo, com uma flauta doce nas mãos e os olhos brilhando diante de uma orquestra na televisão.
Hoje, Luciano é professor de Regência e Canto Coral no Instituto de Artes da UNESP e fundador da Uni Ópera, entidade independente que ele criou há 22 anos. O grupo realiza montagens completas de ópera sem depender diretamente de verbas estatais, algo raro no cenário brasileiro.
A flauta doce, a televisão e uma decisão improvável
Depois de assistir a Amadeus, Luciano pegou sua flauta doce e não parou mais. Em três meses, já era o solista da turma. Mas logo percebeu os limites do instrumento para o repertório que queria tocar.
Seu plano era migrar para a flauta transversal. O pai não topou comprar o instrumento, e Luciano passou um tempo inteiro babando diante de uma vitrine de instrumentos no antigo Mappin.
A virada veio pelo programa Primeiro Movimento, da TV Cultura, apresentado pelo Maestro Jamil Maluf. Em dois ou três episódios dedicados à ópera, foram apresentadas Bastião e Bastiana de Mozart e La Serva Padrona de Pergolesi. Nenhuma das duas tinha flauta na orquestra.
Foi então que Luciano ouviu algo que ficou gravado: “os violinos são a espinha dorsal da orquestra”. Simples assim. Ali estava a decisão: ele ia tocar violino.
O violino como ferramenta, não como destino
Há uma diferença importante entre a trajetória de Luciano e a de muitos violinistas. Para ele, o violino nunca foi o fim, mas o meio. Ele precisava dominar o instrumento para entender a orquestra por dentro e poder reger com propriedade.
Essa visão, que ele mesmo classifica como “um pouco utilitária”, veio de uma lógica bastante direta do adolescente que ele era: se Mozart compunha e regia ao mesmo tempo, fazia sentido aprender a reger para poder conduzir as próprias músicas.
Jean observou que essa motivação é bem diferente da sua própria. Para Jean, a paixão sempre foi o instrumento em si, o violino pelas possibilidades que ele oferece. Para Luciano, foi o universo da música como um todo: a orquestra, o coro, o cenário, o figurino, os bastidores.
A professora que moldou sua técnica
Quando decidiu estudar violino, Luciano foi para a Universidade Livre de Música, hoje EMESP Tom Jobim, onde estudou com a professora Cecília Guida. Ela já foi entrevistada no Podcast do Violino Didático e é descrita por Luciano com muito carinho e respeito.
Foi ela quem estabeleceu o nível de exigência técnica que ele carrega até hoje. Ele reconhece que o que deve a Cecília é justamente o apuro e o refinamento, uma base que sustentou tudo o que veio depois.
Foi também nessa época que Luciano conheceu o violinista Cléberson Buzo, hoje spalla da Orquestra Acadêmica da Uni Ópera, que também tem episódio no podcast. Os dois eram colegas de violino: Luciano com 14 anos, Cléberson com 10 ou 11. Uma amizade que dura décadas.
A Alemanha e a música que pertence a todos
Antes de fundar a Uni Ópera, Luciano passou dois anos na Alemanha, estudando em Freiburg e regendo coros de igreja. A experiência foi transformadora, mas não apenas pela música em si.
O que mais o impactou foi perceber que lá a música fazia parte da vida cotidiana das pessoas. Não era algo reservado a uma elite, não havia um Olimpo distante onde só os escolhidos podiam entrar.
Luciano voltou ao Brasil com essa visão e ela se tornou central no seu trabalho. “A música é um Olimpo onde todo mundo pode estar”, ele diz. E completa, com bom humor, que quem toca violino já está no Olimpo desde o primeiro dia.
A fala ressoou bem com a filosofia do Violino Didático, que carrega justamente essa mensagem: todo mundo é capaz de tocar violino.
Uma entidade independente no mundo da ópera
A Uni Ópera nasceu logo após o retorno da Alemanha. Luciano fez questão de reconhecer outros grupos independentes que fazem trabalhos relevantes no Brasil, como a Companhia Ópera Minas, de Ribeirão Preto. Mas, em termos de volume e escala de produção, a Uni Ópera ocupa um lugar singular.
São 22 anos de história, com produções completas, elencos, orquestra própria e montagens de alto nível sem a estrutura de uma instituição governamental por trás. É uma raridade no cenário da música clássica brasileira.
A estreia de A Flauta Mágica no Teatro Bradesco, justamente no dia da conversa com Jean, era mais um capítulo dessa história. A mesma ópera que encantou um menino de 11 anos numa sala de cinema voltando à vida pelas mãos do homem que esse menino se tornou.
Ouça o episódio completo no YouTube: LUCIANO CAMARGO - Podcast do Violino Didático #115