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John Spindler: histórias de uma vida dedicada ao violino

Podcast Violino Didático

Há músicos que carregam histórias capazes de preencher um livro inteiro. John Spindler, violinista da Orquestra Sinfônica Municipal do Teatro Municipal de São Paulo, é um deles. Nascido em Nova York, com passagem de doze anos por Paris, ele acumula memórias que atravessam décadas e continentes, sempre com o violino como fio condutor.

Jean de Oliveira recebeu Spindler no estúdio em Cotia e, ao longo da conversa, foi descobrindo camadas de uma trajetória singular. Não faltaram risadas, digressões e histórias dignas de roteiro de cinema.

De Nova York para o violino: uma amizade que mudou tudo

Spindler começou a tocar violino aos 8 anos, por influência de um vizinho e amigo de infância chamado Roy Lewis. Foi o irmão mais velho de Roy, Eric Lewis, quem lhe deu as primeiras aulas. O detalhe curioso é que Eric Lewis se tornaria depois o primeiro violino do renomado Manhattan Quartet, e o próprio Roy virou espala das orquestras da Broadway.

Aos 11 anos, Spindler já estudava na Manhattan School of Music com Alfred Tromel, um professor que havia sido assistente de Leopold Auer quando o lendário mestre russo chegou a Nova York fugindo do nazismo nos anos 1930. “Eu posso dizer que todo o início dos meus estudos era baseado diretamente sobre Leopold Auer”, contou ele, reconhecendo o peso histórico dessa linhagem.

Juilliard, Columbia e uma manhã que mudou os planos

Aos 16 anos, Spindler passou no concurso para a Juilliard School of Music, onde estudou até os 19. Mas, ao mesmo tempo, cursava Columbia University com interesse em medicina, especialmente em psiquiatria. Ele queria entender o cérebro, o pensamento, o comportamento humano.

A virada veio de forma inesperada. Uma manhã, acordou e percebeu que não tinha nenhum interesse genuíno em ajudar outras pessoas no sentido clínico. “Decidi naquele dia que não valia a pena ser médico sem ter essa vontade”, disse. Acabou concluindo Columbia com diploma em psicologia, que nunca chegou a praticar. Jean brincou que, de certa forma, ele acaba exercendo a psicologia nas aulas de violino. Spindler concordou com um sorriso.

Carnegie Hall, ronco e as estrelas do violino

Antes de qualquer aula formal, foi um disco que acendeu a chama. Em casa, entre álbuns de Big Band, havia um LP de Jascha Heifetz tocando Tchaikovsky com Fritz Reiner, gravado em 1956. O jovem Spindler ficou “alucinado”.

O primeiro concerto ao vivo foi na Carnegie Hall: Heifetz tocando sonatas. Spindler estava sentado entre a irmã e a mãe quando, no meio da apresentação, ouviu um ronco ao lado. A mãe, atriz da Broadway, havia simplesmente adormecido. “Fiquei com tanta vergonha”, lembrou ele, rindo.

Naqueles anos, ele assistiu a figuras como Mischa Elman e Nathan Milstein ao vivo. Na época, violinistas eram verdadeiras pop stars. Havia votações informais entre estudantes sobre quem era o melhor, e os debates giravam em torno de nomes como Isaac Stern e David Oistrakh.

Paris, o metrô e um grito num rio

Spindler foi para Paris para estudar direito internacional. Para pagar as contas, tocava violino no metrô com o chapéu no chão. Foi nesse período que aconteceu um dos capítulos mais marcantes de sua vida: as aulas com Ivry Gitlis.

Tudo começou com um disco barato comprado numa loja de Nova York, o de Gitlis tocando Stravinsky e Berg. Spindler ficou impressionado. Tempos depois, por intermédio de uma psiquiatra conhecida que tinha contato com o violinista, ele conseguiu um número de telefone.

Já em Paris, fez a ligação. O francês de Spindler era precário, mas Gitlis falava inglês. A resposta foi direta: “I can give you a lesson.” As instruções para chegar, porém, eram peculiares. Gitlis morava numa ilha no Rio Sena, perto de Andresy. Para chegar lá, era preciso pegar um trem, descer na margem do rio e gritar o nome dele.

No domingo seguinte, Spindler foi. Ficou gritando “Ivry! Ivry!” enquanto pescadores ao redor o olhavam sem entender nada. Depois de uns dez minutos, uma figura apareceu na varanda. Era Gitlis, recém-acordado. Desceu, entrou num barquinho de remo e atravessou o rio até buscar o visitante pessoalmente.

“Quando ele chegou perto, eu reconheci. Era ele. Me deu a mão, entrei no barco”, contou Spindler. Assim começou uma amizade que duraria anos.

Aulas numa ilha e um mestre que nunca estudava

As visitas à ilha de Gitlis se tornaram rotina. Spindler ficava o dia inteiro, almoçava, jantava, conviveu com a esposa e os filhos do violinista. As aulas eram informais e observadoras: Gitlis ouvia, às vezes deitado, e fazia comentários precisos sobre postura ou sonoridade.

“Ele mostrava o Sansão e Dalila, o Mendelssohn, e era chocante como alguém podia tocar assim”, lembrou Spindler. O detalhe que mais o intrigava era que, em todos os dias que passou na ilha, nunca ouviu Gitlis estudar. Nunca o viu pegar o violino simplesmente para praticar.

Uma vez, Spindler perguntou diretamente: “Você não estuda?” A resposta de Gitlis foi simples: “Nunca estudei muito na vida. Nunca achei interessante.” Para Spindler, era a expressão de um dom tão extraordinário que tornava o estudo convencional quase dispensável.

Uma vida entre São Paulo e o palco

Hoje, Spindler é figura consolidada na cena musical paulistana. Toca na OSM do Teatro Municipal há muitos anos, ao lado da esposa, a clarinetista Marta Vidigal, que também integra a orquestra e leciona na escola municipal. Ele já foi membro do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e tocou na Jazz Sinfônica. Os casamentos ficaram no passado, com um “eu decidi que era o suficiente” bastante firme.

A conversa com Jean revelou alguém que acumulou experiências raras: cresceu entre cavalos numa fazenda no norte de Nova York, herdou a paixão por chapéus do pai alemão que vendia chapéus em Manhattan, teve uma mãe atriz da Broadway e atravessou o Sena de barco para ter aula com um dos maiores violinistas do século XX.

São histórias que só o tempo e a disposição para viver de forma intensa conseguem construir.

Ouça o episódio completo no YouTube: JOHN SPINDLER - Podcast do Violino Didático #117

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