Fábio Prado: o maestro, a trompa e os bastidores da orquestra
Fábio Prado é o tipo de figura que faz a sala ficar mais interessante assim que começa a falar. Maestro, ex-trompista da OSESP com mais de 25 anos de casa, e doutor em música, ele chegou ao podcast do Violino Didático com uma honestidade rara e uma coleção de histórias que só quem viveu dentro de uma orquestra consegue contar.
Jean de Oliveira o apresentou como “o maestro mais low profile” já recebido no programa. E a conversa que se seguiu mostrou por quê: Fábio Prado não tem papas na língua, mas tampouco tem arrogância. Ele fala da vida musical brasileira com afeto e lucidez.
Para que serve um maestro?
Essa foi uma das primeiras perguntas da conversa, e a resposta veio com uma história simples e reveladora. Um mecânico que amava música erudita perguntou a Fábio por que às vezes uma música o emocionava profundamente e, outras vezes, a mesma obra não o tocava em nada.
A resposta de Fábio foi direta: “Essa é a mão do maestro.”
O papel do regente, segundo ele, é colocar uma concepção musical própria diante de quase cem instrumentistas, cada um com a sua própria ideia sobre como a música deve soar. O maestro precisa convencer todo esse grupo de que a sua visão vale a pena ser ouvida, e depois convencer a plateia também.
Ele fez uma distinção importante entre o público brasileiro e o europeu. Por aqui, as pessoas tendem a aplaudir a música em si. Na Europa, aplaudem a interpretação. Ou seja: aplaudem o que o maestro fez com aquela música naquela noite específica.
“A orquestra é o seu instrumento”, disse ele, lembrando com carinho de uma senhora que, após um concerto no Municipal de São Paulo, comentou sobre o som que ele tirava da orquestra. Foi um dos poucos elogios que guardou com carinho ao longo da carreira.
Jean reforçou esse ponto com a perspectiva de quem tocou em orquestra: trocar o maestro muda completamente a cara do conjunto, mesmo sem mudar nenhum músico.
Da trompa ao pódio: uma transição visceral
Fábio Prado passou oito anos como trompista na OSESP e depois mais 17 como maestro da mesma instituição. Mas a transição não foi planejada desde o início. Ela foi acontecendo à medida que ele percebia que a orquestra, como ambiente de trabalho, tem uma lógica própria e impiedosa.
Ele descreveu a orquestra dos anos 80 e 90 como um lugar onde um bom instrumentista sério e trabalhador não morria de fome. Hoje, lamentou, músicos excepcionais vivem sem trabalho fixo.
Mas o ponto central da sua transição foi outro: a conta da pressão chega para todo mundo, cedo ou tarde. Fábio percebeu, por volta dos 40 anos, que a sua cabeça caminhava mais rápido do que a execução instrumental conseguia acompanhar. Isso o incomodava profundamente.
“O instrumentista puro”, disse ele, “é aquele cara que não se entende sem o instrumento, que tem prazer genuíno em estudar.” Quem não é assim acaba buscando outras formas de se expressar musicalmente. No caso dele, o pódio.
A crueldade da trompa
Para explicar a pressão da vida orquestral, Fábio escolheu falar da trompa com uma franqueza que arrancou risos e reconhecimento.
A trompa, segundo ele, é um instrumento particularmente cruel. Não porque seja tecnicamente impossível, mas porque há momentos em uma obra em que uma única nota define tudo. Ele usou como exemplo a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvořák: no quarto movimento, há uma passagem que o primeiro trompista simplesmente não pode errar. Se acertar, está no céu. Se errar, está no limbo.
Ele contou de uma apresentação da Quarta Sinfonia de Beethoven com a Sinfônica da Cultura. No primeiro domingo, estava inspirado, tocou bem, errou aquela nota fatídica. Ninguém falou nada. Mas no domingo seguinte, nervoso por causa do erro anterior, acertou a nota e todo mundo veio elogiá-lo.
“Eu sempre achei isso muito cruel”, disse ele. A nota define o concerto. O resto some.
Os bastidores da orquestra: pressão, hierarquias e piadas de naipe
A conversa também tocou nas dinâmicas internas de uma orquestra de grande porte, e Fábio não poupou detalhes.
Ele falou sobre a tensão histórica entre os naipes de sopro e de cordas. O naipe de violinos tem muitos músicos tocando a mesma linha, enquanto cada instrumentista de sopro carrega uma parte individual e intransferível. São culturas diferentes dentro do mesmo conjunto.
Em tom bem-humorado, lembrou de um contrabaixista veterano que, durante um ensaio no Copan com Eleazar de Carvalho, pegou o arco, fez um gesto rápido no instrumento e disse para si mesmo: “Aí, Alvarenga, você toca.” Fábio, recém-chegado na orquestra, olhou e pensou: “Não é possível.”
A história resume bem o ambiente: humor como válvula de escape para uma pressão que não cessa. Ninguém vive de passado na orquestra. Ter tocado bem na semana passada não garante nada hoje.
Jean completou a ideia: é o mesmo que acontece no esporte de alto rendimento. Bater um recorde não significa que você vai batê-lo de novo.
O maestro e o tempo certo
Fábio também refletiu sobre o tempo de permanência de um maestro à frente de uma orquestra. Para ele, o ideal seria algo em torno de sete anos, tempo suficiente para estabelecer uma estética, construir uma relação com os músicos e deixar uma marca sonora real.
Ficar tempo demais, disse ele, gera vícios de relação. A plateia começa a ouvir o nome antes de ouvir a música. Os músicos sabem exatamente o que esperar e podem perder o frescor da escuta.
Ele comparou o maestro ao técnico de futebol, ao prefeito: há um tempo natural de governança, e insistir além dele tende a prejudicar tanto o maestro quanto a instituição.
Uma conversa que vai além da técnica
O que torna essa conversa especial não é a quantidade de informação técnica que ela carrega. É a honestidade com que Fábio Prado fala de uma vida dedicada à música, com seus glórias e suas frustrações, suas notas certas e suas notas erradas.
Ele é doutor em música, foi maestro titular de uma das principais orquestras do país por quase duas décadas, e ainda assim fala da profissão com a humildade de quem sabe que o instrumento, seja ele a trompa ou a batuta, nunca dá colher de chá.
Para quem ama música, seja como ouvinte ou como instrumentista, é uma das conversas mais ricas já publicadas no canal.
Ouça o episódio completo no YouTube: FABIO PRADO - Podcast do Violino Didático #093