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Damian Zantedeschi: de rua a mentor de músicos

Podcast Violino Didático

Damian Zantedeschi chegou ao Brasil em 2013 com um violino, R$ 500 no bolso e, segundo ele mesmo, nenhuma noção de nada. Em três dias, o dinheiro tinha acabado. Em menos de um mês, já estava tocando nas ruas de Florianópolis para sobreviver. Hoje, ele é violinista de eventos e mentor de músicos, trabalhando ao lado da esposa para ensinar violinistas, saxofonistas e cantores a serem mais valorizados profissionalmente.

A história de Damian é daquelas que parecem inventadas, mas cada detalhe saiu da própria boca dele na conversa com Jean de Oliveira no Podcast do Violino Didático. Nascido numa cidadezinha de 3.000 habitantes no interior da Argentina, ele nunca teve aula formal de música na infância. Aprendeu tudo de ouvido, tocando bateria e guitarra nas bandas de rock do bairro, ao som de Nirvana e Green Day.

De La Roque para o Brasil: a decisão sem planejamento

Ao terminar o ensino médio, Damian não sabia o que fazer da vida. Trabalhava na roça, tocava nos fins de semana em bares, mas sentia que queria algo diferente. Começou uma graduação em licenciatura em música numa cidade maior, onde pela primeira vez aprendeu teoria musical, harmonia e teve contato com instrumentos como piano, flauta e violão clássico.

Foi nessa época que o irmão comprou um violino barato, guardou no canto e nunca tocou. Damian pegou o instrumento por curiosidade, fez dez aulas com o único professor de violino da cidade e aprendeu o básico: como segurar o instrumento e o arco. Nada além disso.

Mesmo assim, decidiu vir para o Brasil. O motivo? Estava perdido, queria conhecer uma cultura completamente diferente, e o Brasil representava exatamente isso: língua nova, clima tropical, uma ideia de país que os argentinos costumam idealizar bastante.

Três dias de dinheiro e um calçadão em Floripa

Ao chegar em Florianópolis, Damian alugou um quarto na beira da praia em Canasvieiras. Com R$ 500, o dinheiro durou poucos dias. Ele conta que no primeiro dia já foi de festa, porque a praia estava cheia de argentinos. No segundo, começou a entregar currículo. Foi chamado por uma boate, trabalhou cerca de uma semana e foi demitido porque a temporada estava acabando.

Sem trabalho, sem dinheiro e sem plano, ele comprou uma bicicleta barata e foi tocar no calçadão. Com o repertório que tinha, que era basicamente o que o professor havia ensinado nas dez aulas, e muita improvisação, ele ficava horas na rua. No primeiro dia, faturou R$ 3,50. Mas foi o começo de tudo.

Logo ali no calçadão, conheceu um músico colombiano que fazia rap e produzia seus próprios playbacks. Os dois se entenderam, começaram a tocar juntos e chegaram a ir para a Argentina fazer shows na cidade natal de Damian. Voltaram para o Brasil e foram para São Paulo, onde tocaram muito no centro da cidade, nas saídas do metrô, na região da República e na Barão de Itapetininga.

São Paulo, a Copa do Mundo e o primeiro casamento

Em São Paulo, os dois ficaram por cerca de um ano e meio. Tocaram na Copa do Mundo de 2014, venderam CDs nas ruas e chegaram a ser abordados por um produtor que prometeu investir neles. Mas o tal produtor falava mais do que entregava. Após dois meses parados, esperando shows que não vieram, o colombiano perdeu a paciência e os dois voltaram às ruas.

Foi em São Paulo também que aconteceu o primeiro casamento de Damian como violinista. Um contratante o chamou para tocar em Itaquaquecetuba, pagou R$ 100 e Damian foi de metrô. O detalhe que ficou marcado: ele chegou ao evento usando tênis de skate vermelho, calça jeans surrada e sem camisa social. Um dos padrinhos olhou para ele e perguntou se era assim mesmo que ele ia tocar.

Ele não sabia que precisava de roupa específica. Não tinha terno, não tinha sapato social, não tinha nem repertório preparado. Tocou em cima das músicas que o DJ colocava, improvisando por cima. Para quem tinha dez aulas de violino e zero experiência em eventos, já era um começo.

A coragem que substituiu a técnica

Jean perguntou o que explica alguém com tão pouca bagagem técnica ter conseguido sobreviver de música desde então. Damian foi direto: foi coragem, e um bocado de cara de pau.

Na Argentina, ele sempre foi baterista, sempre ficou nos bastidores das bandas dos irmãos, nunca foi o centro das atenções. Chegar ao Brasil, um lugar onde ninguém o conhecia, fez com que ele se sentisse livre para tentar. Sem a pressão de uma reputação a proteger, estava disposto a qualquer coisa.

Essa disposição foi o que o manteve na estrada. Não havia técnica refinada, não havia formação em conservatório, não havia rede de contatos. Havia um violino, vontade de trabalhar e a abertura para aprender com cada situação, por mais constrangedora que fosse.

De músico de rua a mentor de músicos

Depois de mais de dez anos vivendo de música no Brasil, Damian construiu uma carreira como violinista especializado em eventos. Nunca tocou em orquestra, algo que ele menciona com um sorriso, já que sabe que isso gera críticas em alguns círculos musicais. Mas encontrou no mercado de eventos um espaço onde pode se desenvolver e prosperar.

Hoje, ao lado da esposa e sócia Graciane, ele também atua como mentor. O foco é ajudar músicos, especialmente violinistas, saxofonistas e cantores, a serem mais valorizados no mercado de eventos. A experiência de ter começado do zero, passado por perrengues reais e construído uma carreira sustentável é o que alimenta esse trabalho.

A trajetória de Damian é um exemplo concreto da ideia que Jean de Oliveira defende há anos: todo mundo é capaz de tocar violino, e o caminho nem sempre começa da forma que os livros de método ensinam.

Ouça o episódio completo no YouTube: DAMIAN ZANTEDESCHI - Podcast do Violino Didático #135

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