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Cuca Moreira: violino, orquestras e uma vida dedicada à música

Podcast Violino Didático

Cuca Moreira é daqueles violinistas que o meio musical conhece pelo apelido antes mesmo de saber o nome de batismo. Quem trabalha com orquestra no Brasil sabe quem é o Cuca. E quando Jean de Oliveira o recebeu no Podcast do Violino Didático, uma das primeiras curiosidades levantadas foi justamente essa: quantas pessoas sabem seu nome verdadeiro? A resposta do próprio Cuca foi direta e bem-humorada: “Acho que só os porteiros.”

Mas por trás do apelido carismático há uma trajetória sólida, construída desde a infância no Conservatório de Tatuí e consolidada em três das principais orquestras do estado de São Paulo.

Três orquestras, um violinista

Cuca toca na OSUSp (Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo) há 16 anos, na OSESP há 13 anos e na Bachiana há cerca de 10 anos. Ele entrou na OSUSp aos 19 anos de idade, o que, como Jean bem observou, exige muito mais do que prática: exige um caminho bem traçado desde muito cedo.

O próprio Cuca reconhece que entrar tão jovem em uma orquestra profissional de peso não é algo comum. E quando Jean perguntou sobre como fica a agenda com tantos compromissos estáveis, além dos cachês avulsos, Cuca simplesmente riu: “Não faço ideia.”

Essa realidade também levantou um ponto importante na conversa: as vagas em orquestras profissionais demoram anos para abrir. Quem entra jovem fica até a aposentadoria. Isso significa que músicos talentosos muitas vezes precisam acumular três, quatro, cinco posições para construir uma carreira sustentável, enquanto outros aguardam por anos sem ver uma vaga surgir.

Do Conservatório de Tatuí para o mundo

Cuca começou a estudar violino com 6 anos no Conservatório de Tatuí, com o professor Pedro Delaroli. A história do começo tem até um toque de acaso afetivo: Pedro namorava uma prima de Cuca na época, e foi por esse caminho que surgiu a oportunidade de estudar.

A formação com Delaroli foi total. Do zero absoluto, a chamada “boquinha da raposinha” do arco, até o preparo para o concurso da OSUSp, foi Pedro quem acompanhou todo o percurso. Cuca também fez aulas esporádicas com outros professores ao longo do caminho, como Paulo Bosísio, mas o fio condutor de toda a sua formação foi Delaroli.

Jean, que também fez aulas com Pedro por quase um ano, aproveitou para falar sobre o que chama de “som bosaniano”: um som limpo, potente e firme ao mesmo tempo, difícil de definir em palavras mas imediatamente reconhecível. Para Jean, Pedro Delaroli é o principal “cosplay” de Bosísio que existe no Brasil. Cuca concordou completamente.

A fase rebelde e o chamado da música

Como quase todo músico que começa muito cedo, Cuca passou por uma fase na adolescência em que o violino ficou em segundo plano. Não foi namorar, não foi nenhum evento específico. Foi simplesmente o processo natural de descobrir o mundo e deixar de se importar tanto com o instrumento.

Mas a música voltou, como costuma acontecer com quem tem esse vínculo profundo. Cuca não sabe explicar exatamente o que o fez retornar. Ele chama de “chamado”, meio sem querer, e logo emenda: “Eu não consigo me imaginar fazendo outra coisa.”

Ele chegou a pensar em fazer vestibular para outras áreas, mas nunca foi em frente. Ficou em Tatuí, continuou estudando, começou a namorar cedo quem hoje é sua esposa, e aos 19 anos passou no concurso da OSUSp.

Crescer na Congregação e começar fora dela

Um detalhe curioso da trajetória de Cuca é que, apesar de ter crescido na Congregação Cristã no Brasil, onde a música tem papel central, seus estudos formais de violino começaram fora da igreja. Só mais tarde, por volta dos 8 ou 9 anos, ele passou a participar da escolinha musical da Congregação, quando já tocava bem o suficiente para dar aula lá.

Essa inversão do caminho mais comum chamou atenção de Jean, que frequentemente recebe relatos de músicos que começaram exatamente pela formação musical das igrejas evangélicas antes de buscar o ensino formal.

Filhos, violino e a parte mais difícil

A conversa tomou um rumo especialmente rico quando o tema virou a educação musical de filhos. Cuca tem uma filha que, segundo ele, detesta violino, mas toca assim mesmo. “Você vê se sua filha quer tomar banho?” Foi a comparação que usou para explicar sua postura.

Jean, que tem uma adolescente em casa que já tentou o violino algumas vezes e nunca continuou, trouxe um ponto de vista diferente: a partir de uma certa idade, a criança tem o direito de dizer o que quer ou não quer fazer.

Os dois encontraram um ponto em comum: a parte mais difícil de ensinar violino para uma criança não é a parte da criança. É a dos pais. Saber como incentivar sem pressionar demais, como criar o hábito de praticar sem tornar o instrumento uma fonte de conflito, é um trabalho quase pedagógico que exige muito mais dos adultos do que das crianças.

A filha de Jean, por exemplo, chegou a ser medalhista em olimpíadas de astrofísica. Com tantas competências e interesses desenvolvidos, o violino foi apenas mais uma coisa que ela experimentou, sem precisar continuar. Para Jean, isso é exatamente o que deveria acontecer: crianças expostas a muitas experiências, sem a obrigação de ser excelentes em tudo, descobrindo o que realmente querem.

Uma conversa que vale o tempo

O bate-papo com Cuca Moreira é desses que passam rápido demais. São histórias de bastidor de orquestra, reflexões sobre carreira, memórias de Tatuí e opiniões francas sobre educação musical e criação de filhos. Tudo com a leveza de quem está confortável com a própria trajetória e com o que construiu.

Cuca é a prova de que uma carreira sólida no violino clássico brasileiro existe, é real e exige dedicação desde cedo, mas também passa por fases de dúvida, afastamento e reencontro com o instrumento.

Ouça o episódio completo no YouTube: CUCA MOREIRA - Podcast do Violino Didático #109

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