Ana Cristina Abrantes: violoncelista brasileira que dirige um dos maiores núcleos de ensino de música do mundo
Há histórias que começam com uma fita VHS e terminam na direção educacional de uma das maiores organizações de música clássica dos Estados Unidos. A de Ana Cristina Abrantes é exatamente assim. Violoncelista, educadora e diretora de educação da Sphinx Organization, ela é uma das brasileiras com maior impacto no ensino de música erudita no mundo hoje.
Natural de Campos do Jordão, Ana Cristina chegou à música pelo festival de inverno da cidade, cresceu no Projeto Guri e foi construindo uma trajetória que a levou, passo a passo, até Detroit. Em conversa com Jean de Oliveira no Podcast do Violino Didático, ela contou essa jornada com uma generosidade e clareza que encanta desde as primeiras palavras.
O que é a Sphinx e por que ela importa
A Sphinx Organization foi fundada em 1997 por Aaron Dworkin, um violinista negro que estudava na Universidade de Michigan. Adotado por uma família judaica, Dworkin sempre teve acesso à educação musical, mas se sentia profundamente sozinho no ambiente da música clássica. Ele sabia que existiam outros músicos como ele espalhados pelo país, mas sem visibilidade.
Com isso em mente, ainda como aluno de bacharelado e com pouco mais de 20 anos, ele criou uma competição nacional para músicos negros e latinos. Apresentou o projeto ao presidente da Universidade de Michigan, recebeu apoio financeiro e começou a escrever cartas à mão para escolas de música de todo o país. Estávamos em 1997, antes das redes sociais, antes do e-mail ser onipresente.
De duzentas ou trezentas cartas enviadas, vieram poucas respostas. Mas duas foram decisivas. Uma era do presidente do Banco Mundial, que por acaso era violoncelista. A outra veio assinada com o sobrenome Williams e, ao abrir o envelope, Dworkin descobriu que era da esposa de Robin Williams, um dos maiores patrocinadores que o projeto viria a ter.
A competição cresceu, ganhou transmissão nacional e logo ficou claro que o problema da representatividade nas orquestras não se resolvia apenas dando holofote a talentos já formados. Era preciso começar muito antes. A Sphinx virou então uma organização completa, com programas de iniciação, festivais de verão e parcerias com os maiores conservatórios dos Estados Unidos, como Juilliard, Curtis e o Conservatório de Boston.
Por que negros e latinos, especificamente
Essa é uma pergunta que Ana Cristina ouve com frequência e responde com precisão. O foco da Sphinx em músicos negros e latinos não ignora outras minorias. Ele reflete uma realidade específica: esses dois grupos são os de maior tamanho proporcional na sociedade americana e, ao mesmo tempo, os de menor representação nas orquestras e escolas de música.
Como ela explica, grupos asiáticos também são minoria nos Estados Unidos, mas já têm representação expressiva nas orquestras. Comunidades negras e latinas chegam a representar até 50% da população em algumas regiões, mas correspondem a menos de 2% dos músicos de orquestra. É essa assimetria que a Sphinx tenta corrigir, e foi exatamente para isso que a organização foi construída.
O trabalho de Ana Cristina na Sphinx
Como diretora de educação, Ana Cristina supervisiona o que a organização chama de pipeline, o primeiro e mais fundamental dos quatro eixos de atuação da Sphinx. São dois programas principais sob sua responsabilidade.
O primeiro é o Sphinx Overture, voltado para iniciantes e que funciona em escolas primárias, com foco atual em violino. Ana Cristina, violoncelista de formação, está trabalhando para expandir o programa para uma orquestra de cordas completa. São quase 20 escolas atendidas, com 14 professores que recebem treinamento e reciclagem a cada dois ou três meses.
O segundo são as academias de verão, três festivais realizados em parceria com conservatórios em diferentes regiões do país. Para o próximo verão, as parcerias confirmadas incluem o Conservatório de Boston, a Juilliard School e a Universidade do Colorado em Boulder. O programa é voltado para jovens de 11 a 17 anos que estejam residindo nos Estados Unidos, independente da nacionalidade.
Campos do Jordão, uma fita VHS e o começo de tudo
Antes de Detroit, antes da Sphinx, havia uma menina de 12 anos em Campos do Jordão que assistia e reassistia uma fita VHS da violoncelista Jacqueline du Pré. O pai de Ana Cristina, cinegrafista e apaixonado por música erudita, tinha as Quatro Estações de Vivaldi tocando em casa o tempo todo. E foi ele quem gravou aquela fita que ela guardava com tanto cuidado.
Em 1998, a violinista Renata Jafé e o maestro Daniel Mük foram a escolas públicas de Campos do Jordão fazer testes de aptidão musical como um experimento dentro do Festival de Inverno. Ana Cristina foi uma das selecionadas. Cantou o Parabéns pra Você, tentou ler música e foi chamada para participar.
Quando viu o violoncelo, não teve dúvida. Queria aquele. Durante quatro semanas de festival, ela e os colegas tiveram aulas e terminaram o projeto com uma apresentação de uma hora de repertório, com a casa cheia. Para uma criança que havia começado semanas antes, aquilo foi uma revolução.
O experimento foi tão bem-sucedido que chamou a atenção do governo estadual. Campos do Jordão tornou-se um dos primeiros polos do Projeto Guri fora da capital, ao lado de Taubaté. Ana Cristina se inscreveu imediatamente, continuou estudando e, em menos de um ano, estava tocando na Sala São Paulo, com regência de João Maurício Galindo e o pianista Artur Moreira Lima como solista.
Ela tinha 12 anos. E não parou mais.
A música que vai além do palco
Um dos momentos mais ricos da conversa foi quando Jean e Ana Cristina falaram sobre músicos que seguiram outras carreiras. Ela mencionou que nos Estados Unidos é comum encontrar orquestras formadas por médicos, engenheiros e advogados que estudaram música a sério na juventude e escolheram outros caminhos profissionais.
Para Ana Cristina, isso não é fracasso. É exatamente o ponto. A música ensina disciplina, determinação e a capacidade de enfrentar desafios. Quem passa por isso carrega essa base para onde quer que vá, e tende a respeitar e apoiar a música ao longo da vida. São esses os chamados infiltrados, pessoas formadas pela música que atuam em outras áreas e ajudam a sustentar o ecossistema cultural de fora dele.
Ela mesma diz que não nasceu com a intenção de ser violoncelista profissional. Acabou sendo. Mas entende que esse não é o único caminho válido, e que boa parte do trabalho que faz hoje tem exatamente esse propósito mais amplo.
Uma vida que virou círculo
Há algo muito bonito na trajetória de Ana Cristina. Ela começou numa escola pública de Campos do Jordão, foi selecionada por educadoras que acreditaram no potencial dela, e hoje faz exatamente o mesmo: vai a escolas, seleciona jovens, cria oportunidades e acompanha de perto o desenvolvimento de cada um.
Ela mesma usa a palavra círculo para descrever isso. E é difícil discordar.
Ouça o episódio completo no YouTube: ANA CRISTINA ABRANTES - Podcast do Violino Didático #138