Alisson Muniz: violino barroco, música e reinvenção
Alisson Muniz é um desses músicos cuja trajetória surpreende logo nos primeiros minutos de conversa. Violinista, professor, produtor cultural e estudante de licenciatura em música na Unesp, ele também é intérprete de violino barroco, área que vem conquistando cada vez mais espaço em sua vida musical. Para Jean de Oliveira, Alisson é simplesmente “um dos caras mais legais que a música já me deu o prazer de conhecer”.
A conversa entre os dois tem um sabor especial: eles se conhecem desde 2011 ou 2012, quando se encontraram num projeto de orquestra em São Paulo. Mas o que poucos sabiam naquele tempo é que Alisson vivia uma vida paralela bem distante dos palcos.
De análise de sistemas ao violino por R$ 200 por mês
Antes de se dedicar à música em tempo integral, Alisson cursou análise e desenvolvimento de sistemas. Trabalhava como estagiário e ganhava cerca de R$ 2.000 por mês. Quando terminou a faculdade e encerrou o contrato de estágio, ele se viu diante de uma bifurcação: continuar na área de TI ou apostar na música.
A escolha foi corajosa, para dizer o mínimo. Ele foi dar aula num projeto social que pagava R$ 200 por mês. Isso mesmo, dez vezes menos do que ganhava antes.
O que tornou isso possível, segundo ele mesmo, foi ainda morar com a família naquele momento. Esse suporte foi fundamental para que a loucura, como ele mesmo chama, pudesse acontecer. Aos poucos, foi acumulando alunos particulares, divulgando seus serviços em plataformas como o SuperProf e atendendo em casa ou indo de ônibus até os alunos.
A construção gradual de uma carreira
Não foi da noite para o dia. Alisson estima que levou cerca de dois ou três anos para conseguir tirar um valor razoável com as aulas de violino. Com o tempo, saiu da casa dos pais e passou a se sustentar majoritariamente como professor.
Hoje, ele mantém uma classe de cerca de 12 alunos, todos atendidos online ou presencialmente em sua casa. Ele mesmo faz questão de ressaltar: não vai mais até a casa de nenhum aluno. Uma conquista que representa muito para quem começou indo de ônibus por São Paulo afora.
Além das aulas, Alisson faz parte desde 2011 da Rede Cultural Luther King, um coral amador que expande suas atividades para projetos culturais mais amplos na cidade de São Paulo, incluindo concertos com orquestra e uso de instrumentos de época.
Bastidores da música: o músico que também produz
Um dos pontos mais ricos da conversa foi quando Alisson falou sobre sua experiência com produção cultural. Ele trabalhou por um período no Teatro Municipal de São Paulo, na equipe do maestro Martinho Luther, fundador da Rede Cultural Luther King.
Essa vivência nos bastidores, segundo ele, transforma a visão que o músico tem do próprio trabalho. Quem toca numa orquestra, observa Alisson, muitas vezes enxerga apenas o ensaio e o palco. Não vê tudo o que acontece para que o concerto seja possível: montagem, documentação fiscal, captação de projetos, produção de eventos.
Ele passou por tudo isso. E esse olhar ampliado sobre a música faz parte de quem ele é hoje como artista.
O encontro com o violino barroco
A história com o violino barroco começou de um jeito bem simples: um amigo que já tocava o instrumento o “aliciou”, nas palavras do próprio Alisson. O primeiro contato foi dentro do contexto da Rede Cultural Luther King, que por volta de 2014 passou a explorar o uso de instrumentos históricos.
Mas o estudo de fato só veio anos depois, entre 2018 e 2019. Hoje ele estuda violino barroco na Emesp Tom Jobim e na Orquestra Municipal de São Paulo com dois professores ao mesmo tempo, além de continuar com o violino moderno com outra professora na Municipal.
É muita coisa rodando em paralelo. E Alisson admite isso com bom humor.
Barroco versus moderno: por que a diferença importa
Uma das trocas mais interessantes da conversa foi sobre as diferenças técnicas entre o violino barroco e o moderno. Para Alisson, é importante que o aluno venha para o barroco com uma base sólida no instrumento moderno, porque tirar som do violino barroco é consideravelmente mais complexo.
O violino moderno foi desenvolvido ao longo dos séculos com um objetivo claro: soar mais, projetar mais, ocupar salas maiores. Esse movimento ganhou força após a Revolução Francesa, quando a burguesia queria espetáculos maiores do que os da monarquia, e isso se refletiu nos instrumentos.
As cordas de aço, mais resistentes e potentes, são uma das marcas desse desenvolvimento. Mas nem sempre foi assim. Alisson menciona que há relatos de violinistas usando cordas de tripa até o início do século XX, e que o próprio Perlman teria usado cordas com núcleo de tripa até os anos 1980.
A conversa ainda rendeu uma discussão divertida e genuinamente curiosa sobre veganos e instrumentos de cordas. Afinal, além das cordas de tripa, há cola de osso nos instrumentos, crina de cavalo nos arcos, talões de marfim, madre-pérola… Uma série de materiais de origem animal que compõem o universo da lutheria tradicional.
Por que música e não TI?
Jean perguntou diretamente: por que não ficou na área de tecnologia, onde o mercado era favorável? A resposta de Alisson foi direta: ele simplesmente não gostava.
Estudou porque disseram que dava dinheiro. Mas quando chegou o momento de escolher, a conta foi simples: entre não ganhar bem com algo que não ama e não ganhar bem com algo que ama, ele ficou com a música.
E há uma sabedoria genuína nessa lógica. Alisson observa que as pessoas que se destacam em qualquer profissão, em geral, são aquelas que gostam do que fazem. Quem não gosta corre o risco de ser apenas mais um, ou nem isso.
A trajetória de Alisson Muniz é uma prova de que não existe um caminho único para a música. Às vezes, é preciso passar pelo estágio de TI, pelos R$ 200 mensais, pelos ônibus até a casa dos alunos e pelos bastidores de uma produção cultural para encontrar, de verdade, o som que você quer fazer.
Ouça o episódio completo no YouTube: ALISSON MUNIZ - Podcast do Violino Didático #080